NORBERTO ÁVILA

 

DAS TINTAS E VERNIZES

 

 (Conto / 2007 / Inédito)

 

Para o João Pimentel e para a Maria do Carmo

 

Mas que reviravolta no ânimo (ou desânimo) dum homem! A vida, assim num repente, surpreeende-nos e deixa-nos mesmo esparvoados e boquiabertos! Pois não é que, a um tal Adalfredo Cordato, em pensamento preparado para amargar uns largos anos… eis que lhe é dado escutar a voz autorizada (embora não muito jubilosa ou entusiástica) de quem em jurídica matéria pontificava!

Os primeiros abraços brotaram de Benvindo Salvador e de outros fiéis da Igreja Mosaica dos Doze Mandamentos, logo seguidos de equivalentes manifestações de apreço e regozijo por parte de uns tantos colaboradores profissionais, e até parceiros de comércio e indústria, de mais íntimo contacto.

Na verdade, o conhecidíssimo empresário das não menos reputadas tintas TrovisColor não sabia como reagir à face de semelhante desfecho, que seriamente o confundia e embaraçava. E, sendo sexta-feira, a sua vontade imediata foi a de abalar naquela mesma tarde, directo ao Algarve, hospedar-se no familiar hotel de 5 estrelas, deveras sobranceiro ao Atlântico, e, abandonando-se à mornidão do Outono, deixar-se recompor, física e mentalmente, dos enormes sobressaltos ocorridos naqueles últimos 10 meses. Mas o Benvindo Salvador logo lhe disse que nem pensar! Para isso teria ele muito tempo!

Foi então mais preciso nas intenções: “Hoje, meu amigo, havemos de jantar juntos! Que me diz… na Nazaré?, já que tanto suspira pelo marulho das ondas?” Depois, descarregando um cachação amistoso no seu faz-tudo, avançou a segunda proposta: “Aqui o nosso querido companheiro Firmino Marchante fará o obséquio de convocar o maior número possível de confrades, para uma sessão de geral regozijo e, – digamos as coisas como elas são! – de tributo justíssimo, à figura exemplar do cidadão Adalfredo Cordato!”

Então o Marchante perguntou, de pronto, em que local se haveria de realizar a dita sessão de homenagem, tanto mais que já não disporiam de muito tempo para o efeito. E Benvindo Salvador respondeu que teria de ser na própria sede da Igreja Mosaica, nas Caldas da Rainha. O salão não era tão amplo quanto seria para desejar… mas paciência!

“Pela Internet e pelo telemóvel,” tornou o ajudante, “consigo enviar a mensagem convocatória a umas boas centenas dos nossos fiéis. E se aí uns 10% puderem comparecer…”

“Sim, admitamos 100 a 150 pessoas… já não seria nada mau.”

Assentaram portanto os últimos pormenores. Adalfredo iria a casa (que distava de Leiria apenas uns 9 ou 10 kms), tomar um duche, tratar dos cães e resolver outros assuntos, que não especificou. O Salvador voltaria para as Caldas, a fim de acelerar os preparativos para a festança de congratulação, que foi marcada para as 22 horas. Entretanto, o jantar na Nazaré – ele apenas com o homenageado – ficava combinado para as 19 em ponto, em restaurante bem conhecido, Tá-Mar de seu nome.

Já no automóvel (um Maserati vermelhão), a caminho da faustuosa residência, as ideias e as lembranças – as mais e as menos felizes – atropelavam-se-lhe na cabeça. Acudiu-lhe à memória, por exemplo, o jocoso diálogo que, passado algum tempo de desenfadado convívio com a empresária Sandrina Canaverde, com ela travara, naquele mesmo restaurante nazareno, diálogo que esteve na origem de todas aquelas peripécias rocambolescas dos últimos tempos.

Haveria então cerca duma dezena de anos, Adalfredo Cordato, já entrado nos 40 e ainda celibatário, adquirira uma fabriqueta de tintas e vernizes em vias de falência, que, com raro instinto industrial e financeiro, conseguiu trazer a primeiro plano no quadro variadíssimo da produção distrital. E convém desde já dizer que, entre tão diversos artigos constantes do vistoso catálogo da fábrica TrovisColor, figuravam as famigeradas latas de spray com que os grafiteiros se dignam animar as macilentas, mortiças paredes das nossas tristes moradias.

Ora acontece que entretanto, a bem poucos quilómetros dali, numa terra chamada Montalvim, falecera um honrado e discreto empresariote, de nome Daniel Canaverde, cuja prestação de serviços se traduzia em limpezas várias (em interior e exterior) e até desinfestações as mais eficientes. E a filha, a já referida Sandrina Canaverde, vivia então em Inglaterra, estudava Engenharia do Ambiente, ou coisa que o valha, e estava a pouco mais de um ano de terminar o seu curso.

Regressa a laboriosa moça a Portugal e, herdeira única, toma as rédeas do negócio paterno; incrementa-o, com alguma prudência, e aparece com um novo serviço, de grande interesse regional: remoção de grafitos das paredes e muros das principais cidades e vilas do concelho e do distrito.

Foi então que se conheceram Sandrina e Adalfredo, por intermédio duns amigos de ambas as partes. E certo dia, indo já a confiança mútua em bom andamento, deu-lhes para um passeio até à Nazaré. Duas horas de praia e sequente almoço no referido restaurante Tá-Mar.

Saboreando uma caldeirada de enguias, iam falando de tudo e de nada. Até que, inevitavelmente, vieram à baila os miudinhos negócios de cada qual. E o próspero empresário achou engraçadíssima aquela descoincidência de empenhos.

“Anda a minha boa amiga a limpar as paredes de todo o nosso concelho e eu a tratar de as sujar com os meus tão apreciados sprays das mais variadas cores! Bem poderíamos, Sandrina, fazer uma tentativa de unir esforços, de trabalhar para o bem… (digo: a bolsa) comum!”

“Como assim?”

“Casando.”

Casaram.

Se o primeiro ano de matrimónio ainda foi de razoável estabilidade (assim o testemunham a um e outro lado), já o segundo e o terceiro se mostraram periclitantes. Incompatibilidade de temperamentos, dizia-se. Pelo que cada qual se refugiava muito no seu trabalho individual: ele com as suas tintas e vernizes; ela, com as suas limpezas e desinfestações. De qualquer modo, ainda concordaram em passar juntos alguns reduzidos períodos de férias, quer pelo Verão quer pelo Natal, fosse no Algarve ou na Califórnia, na Suécia ou nas ilhas gregas.

Falou-se sobretudo duma disparidade de sentimentos religiosos. Uma treta. Sandrina, embora achasse uma tontaria pegada a ligação do marido com a tal Igreja Mosaica dos Doze Mandamentos (o que eles haviam de inventar!), não se lhe opunha, pelo menos abertamente, nesse domínio. Ora ela, tendo crescido sob a influência dum catolicismo mitigado, era tida por não-praticante, o que facilitara a opção do consórcio não-religioso. Tanto melhor para o processo de divórcio, que ela foi a primeira a reclamar. E, tendo casado em regime de separação de bens, e não havendo filhos, não foi difícil estabelecer aquilo a que cada qual teria direito pela legítima desunião. Ela, embora mantendo a quinta de Montalvim, fora viver com Adalfredo no Troviscal. Pois arrebanhou as suas roupas, livros e pouco mais; regressou ao refúgio de solteira, admitindo perfeitamente a hipótese de vir a congraçar-se com o género masculino (tomadas as devidas cautelas) e caso o destino assim o entendesse.

As quezílias entre ambos nem por isso findaram de todo. E consta até que por mais duma vez se teriam engalfinhado (pelo telefone, felizmente); isto porque a Canaverde acusava o Cordato de sonegar correspondência vária que a ela fora ultimamente endereçada para a sua ex-residência do Troviscal. E, ao que tudo indica, o impertinente empresário mandaria, de quando em vez, um dos seus colaboradores mais manobráveis a espiar, de um arvoredo fronteiro, quem entrava e saía o portão de Montalvim. Ciúmes despontantes? Em todo o caso serôdios, convenhamos.

Até que, certa manhã, Sandrina empalideceu mais que o muro da quinta, no qual o vitupério se evidenciava. Escarrapachada em letras garrafais, num violento vermelho de spray, a soez recomendação de que deveria antes lavar e desinfestar a… (Não sei se me entendem.)

Com pessoal habilitado para o efeito, a infeliz tratou logo de… apagar o insulto repugnante.

Bem pouco depois desta peripécia, passando Adalfredo por Montalvim, viu um homem ainda jovem (uns 30 anos, se tanto), conhecido mas cujo nome não lhe ocorria de momento. Viu-o entrar no Lisandro, o café principal da povoação. E, dando primeiro uma volta pelo jardim adjacente, como quem não quer a coisa, a fazer tempo, entrou então, estando o dito homem já sentado a uma mesa a tomar a sua cerveja.

E, não precisando de apresentar-se, superconhecido como era por toda a região, disse que gostaria de dar-lhe uma palavrinha, um pouco mais em particular, pelo que o convidava a tomar um uísque, não indo muito longe, ali pela Marinha Grande. (Era isto ao fim da tarde.) O homem, que afinal se chamava Serrabulho, Arménio Serrabulho mais exactamente, era há dois ou três anos empregado da Canaverde. Isso sabia ele muito bem.

Arménio entrou no carro do industrial e ambos rumaram, despreocupados, à Marinha Grande. Já a meio do percurso, porém, interrogava-se o inopinado viajante sobre o que pretenderia o Adalfredo Cordato. Que deixasse de trabalhar para a Sandrina e passasse a trabalhar para ele? Era uma hipótese. Mas não abriu o bico. Preferia que fosse o outro a abrir o jogo, como se costuma dizer.

Depois, sentados a uma mesa obscurecida, a um extremo vazio do café Cova do Lobo, cada qual com o seu uísque bem fresquinho, começou o empresário, assim à maneira de intróito, a perguntar-lhe se era solteiro ou casado e onde trabalhara antes de entrar ao serviço de D. Sandrina.

Era solteiro e contava 29 anos. E tinha trabalhado numa lavandaria. Mas, por se haver metido nuns lamentáveis consumos e trafegâncias de drogas, os patrões apontaram-lhe a porta da rua. Ficou sem emprego e quase ao deus-dará, socorrendo-se dos pais, pobre gente. Foi então que D. Sandrina confiou nele e lhe deitou a mão e lhe ofereceu um lugar na sua empresa.

O empresário desvalorizava a generosidade da sua ex-mulher, insistindo que, trabalhando para semelhante criatura, nunca ele passaria da cepa torta.

“O que ela me paga chega muito bem para viver decentemente,” e sorveu mais um gole de uísque. “Tanto mais que, abandonando o vício da droga, que era realmente a minha ruína, e morando com os meus velhotes, não preciso assim de mundos e fundos…”

“Quanto é que ela te paga por mês?”

“550 euros.”

Adalfredo remoeu um brusco sorriso sarcástico. “Que dirias tu se eu te propusesse um trabalhinho muito especial… extra… coisa que te daria, assim de repente, um salário único… mas equivalente a um ano de esfalfadelas nessa empresariola de meia-tigela?”

Espantou-se o modesto convidado, e agitou-se, ansioso por apanhar mais pormenores da proposta.

E o outro insistiu: “Repara bem que estou a falar duma importância que poderá atingir os… digamos… qualquer coisa como uns… 6 mil euros! Ou mais!”

O olhar de Arménio derivou para o rectângulo da porta, interceptado por um ramo de sabugueiro balanceante.

“Depois, executada a tarefa,” acrescentou Adalfredo, “inda te arranjarei outros 6 mil euros, para que possas sair imediatamente do país. Enfim, dinheiro para a viagem e para os primeiros tempos na estranja, até que refaças a tua vida como muito bem entenderes.”

O ex-drogado impacientava-se. Remexia-se na cadeira.

“Pelo avultado preço que te proponho, amigo Arménio, creio que não hesitarás em… com muita firmeza de mão, disparar um tiro certeiro à cabeça de alguém. (Se forem dois, melhor ainda.)

Embora receando a brutal confirmação da resposta, o induzido quis saber quem deveria ser a vítima. E o empresário, como era de esperar, soletrou o nome de Sandrina Canaverde, sua ex-mulher.

Depois, deixando-se o homem convencer, a pouco e pouco, foram ajustados os pormenores.

“Mesmo que não sejas abelhudo por natureza,” conjecturou o Adalfredo, “deves saber melhor que eu a vida actual da tua patroa.”

“Ora o que se deixa ver… mais abertamente… não digo que não.”

“A cavalheira, ao que me dizem, depois que se viu livre da minha tutela, costuma ir desopilar, descontrair-se numa discoteca.”

“Sim? Não sabia.”

“Ficas a saber.” Sorveu mais um trago de uísque. “Conheces uma que se chama Tamborim, toda vestida de heras e madressilvas, entre Almoster e Alvaiázere?”

“De passar na estrada, Sr. Cordato. Mas nunca lá entrei.”

“Nem precisas. Porque o cenário da diversão derradeira… há-de ser mais familiar.” Levou a mão ao interior da pesada pasta de couro e extraiu, envolto num retalho de camurça, aquilo que o Arménio presumiu ser um revólver. “Guarda isto no bolso.”

Sem uma palavra, o ex-drogado executou. E apurou o ouvido para receber as complementares indicações.

“Lady Esfregona (chamemos-lhe assim) apresenta-se por lá todas as noites de sexta-feira. Mas regressa bastante cedo, ao que me dizem. Entre a uma e as duas da manhã. O que há a fazer, portanto, é esperá-la naquele arvoredo, frente ao portão da quinta. Para maior segurança, dois tiros, ouviste? E deitas-lhe a mão à carteira. Para que fique bem evidente que se tratou dum assalto (de trágicas consequências)…”

No seguimento de minuciosas recomendações quanto ao uso posterior do automóvel da vítima, o descarado instigador do crime sacou um macinho de cheques e passou logo um de 6 mil euros, ao portador. O resto, para a viagem e reacomodação no estrangeiro, – reclarificou –, seria pago de imediato após a execução do trabalhinho.

O Serrabulho, entre deslumbrado e apreensivo, tomou nas mãos o documento e acabou por dizer: “Pensando bem, Sr. Cordato, acho que seria mais acertado anular este cheque…”

“Como assim? Duvidas que ele tenha cobertura?”

“De modo nenhum! Mas tem de concordar que, tanto para mim como para si, quanto menos sinais do nosso envolvimento neste assunto… melhor!”

“Pronto. Não há problema,” disse o empresário. “Preferes receber em dinheiro vivo? Seja! Será caso arrumado, mal cheguemos ao Troviscal.”

Ficando as coisas assim combinadas, tomou cada um mais um uísque e iniciaram o regresso. Até que o das tintas e vernizes parou o carro junto à fábrica e pediu ao outro que aguardasse. Quando o mandante do crime regressou, procedeu à entrega da recompensa, em notas graúdas, num envelope sem timbre, imaculado. Arménio, receando um improvável vislumbre da secreta operação, voltou-se ligeiramente de costas para a rua; conferiu o dinheiro. E, fazendo menção de sair da viatura, logo Adalfredo se prontificou a levá-lo a casa, distante um quilómetro, quando muito. Mas o das limpezas recusou, dizendo que preferia ir a pé, que precisava de andar um bocado. Pelo que se despediram, na perspectiva de se falarem ainda, mais para o meio da semana. (Era isto numa segunda-feira.) E o impaciente condutor ainda lhe confidenciou, a meia voz, pela janela de vidro rebaixado: “Espero que tudo corra como se deseja.”

“Há-de correr, se Deus quiser.” E logo se separaram.

Acompanhemos agora, prioritariamente, o potencial candidato a homicida. E porque lhe apetecia na verdade perambular por aquelas várzeas, o ex-drogado meteu por um caminho que circundava o exterior da povoação, ruminando o diálogo que acabara de ter com o empresário-mor do concelho. E, neste vagabundear, acudiu-lhe à memória, também, a conversa que uns três anos antes tivera com a sua salvadora, D. Sandrina Canaverde.

“Então, Sr. Arménio, ainda por aqui, sem fazer coisíssima nenhuma?”

(Isto, passando ela pelo Jardim Dom Dinis e estando ele estirado num banco, ao sol primaveril.)

“Por mais que procure, D. Sandrina, não encontro quem me queira dar trabalho.”

“Olhe que eu sou muito capaz de confiar em si. Que lhe parece? Quer vir trabalhar para mim?”

Deu logo um salto e seguiu-a, de pronto.

(“Seis mil euros, assim, do pé prà mão, para dar conta do recado?!”) E, deslizando a mão no bolso interior do casaco, sentiu na ponta dos dedos a solidez do maço de notas. (“Chiça!, é muita massa!”) E fora o resto, já prometido, quando executasse a tarefa. Mais 6 mil euros, para viagem e instalação. Lembrou-se de Espanha, por não saber línguas, e ser país onde mais facilmente se poderia fazer entender. E por que não a Argentina? Ou a Venezuela!, onde lhe constava haver muitos portugueses? Ora, quem vai para a Argentina ou para a Venezuela… vai para o Brasil, que sempre é terra de língua portuguesa!

Atormentou-se naquele dilema consciencial os dois primeiros dias, a ponto de nem conseguir concentrar-se convenientemente no trabalho, nem poder encarar a patroa. Ela pergunta-lhe se não está a sentir-se bem e ele inventa um mal-estar qualquer, pelo que ela o dispensa dos compromissos laborais o resto da tarde. Que vá para casa, descansar.

Mudemos de cenário.

Ao 3º dia, à noitinha, quando já Adalfredo Cordato ardia de impaciência e quase desesperava, aparece-lhe à porta um inspector da Polícia Judiciária. Ficou a saber que, na véspera, o Arménio Serrabulho se apresentara numa esquadra da PSP (em Leiria, mais exactamente) e denunciara o seu segredo angustioso ao chefe, que bem conhecia, dos seus próprios antecedentes criminais de toxicodependente. À guarda do qual, aliás, veio a confiar a volumosa quantia recebida do empresário troviscalense, com todos os pormenores de aliciamento ao homicídio a efectuar na pessoa de Sandrina Canaverde. E que, ouvidas e registadas as declarações do denunciante, o chefe da PSP lhe entregara documento comprovativo do depósito provisório da referida quantia.

Daí à detenção do Adalfredo foi um instante. Logo lhe foi aplicada medida de coacção de uso de pulseira electrónica. Tão-pouco foi demorado o julgamento. Abreviemos também, abreviemos.

E assim, dirigindo-se ao conhecidíssimo industrial das tintas e vernizes, disse o juiz Nicolau Salvaterra: “É com as entranhas inteiramente revoltadas que me vejo obrigado a comunicar-lhe esta decisão raríssima, se não mesmo inaudita: Mau grado o seu comportamento se ter revelado deplorável, e até execrável em todos os aspectos, serei obrigado a, nos termos da lei vigente neste País, declará-lo absolvido.”

Desencadeou-se na sala um murmurinho de atenuada surpresa, a que o magistrado logo pôs termo, acrescentando: “Muito embora fique provado que o Sr. Cordato” (e acentuou a soletração do nome) “encomendou despudoradamente a morte da ex-mulher, a triste verdade é que não dispomos de enquadramento legal para condenar crimes encomendados mas não consumados.”

Por isso o regozijo mais ou menos expresso dos íntimos colaboradores, de clientes, de parceiros industriais, especialmente fornecedores. Mas sobretudo dos fiéis companheiros da Igreja Mosaica dos Doze Mandamentos.

À sessão congratulatória no templo primordial das Caldas da Rainha compareceram cerca de 2 centenas de pessoas, provenientes de muitas terras do distrito, já que a mensagem convocatória correu célere por montes e vales. A parte mais substancial consistiu no discurso de saudação ao empresário (em tão boa hora desembaraçado e salvo das malhas da justiça) e na sábia maneira de tirar dividendos de tão favorável situação. Na verdade, explanadas as múltiplas qualidades morais do Adalfredo Cordato, o chefe da Igreja Mosaica agradeceu ao profeta padroeiro a graça concedida ao fidelíssimo servo troviscalense. E acabou por recordar ao festejado empresário, agora em público, e num almejo de compromisso definitivo, uma promessa em tempo feita: a de arcar inteiramente com as despesas de construção da nova sede, para a qual a comunidade já dispunha de terreno apropriado.

E o apaziguado industrial agradeceu a calorosa recepção e o entusiástico discurso de Benvindo Salvador. E assumiu, desta vez à face do mundo, a obrigação natural do dito empreendimento.

A sessão atingiu o auge do arrebatamento religioso e social ao ser cantado em coro (mais de 200 vozes!) o hino da Igreja Mosaica dos Doze Mandamentos:

“Ó Igreja Mosaica, guerreira,
és capaz, és audaz, és tenaz!
Triunfante, serás a primeira!
Vencerás, vencerás, vencerás!”

Adalfredo sorria. Mesmo sem a colaboração de Lady Esfregona (também tinha piada, pois não tinha?) começava já a limpeza do seu nome!

NORBERTO ÁVILA

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