NORBERTO ÁVILA

 

NO MAIS PROFUNDO DAS ÁGUAS

 

 Romance (1993 e 1994) 

Lisboa, Edições Salamandra, 1998

 

SINOPSE:

No primeiro capítulo do romance – Panorama lisbonense com figuras várias – predomina a sofisticada figura de Eça de Queirós, radicado em Lisboa logo após o curso universitário de Coimbra. Isto, em jeito de homenagem ao profundo conhecedor que virá a ser dos meandros sociais da nossa capital. Olhos e ouvidos bem atentos aos pequenos conflitos populares, apresenta-se, por engano na data marcada, no estúdio do fotógrafo da Casa Real, e aprecia, precisamente, como pretenso assistente do artista, a uma sessão fotográfica de D. Luís e de D. Maria Pia, com os pequenos príncipes Carlos e Afonso. Dá então uma volta pelo conceituado Armazém de Víveres de Jerónimo Martins & Filho, onde dialoga um instante com um inesperado fornecedor de azeite: o austero escritor Alexandre Herculano. Entra depois na Livraria Bertrand, a encontrar-se com Oliveira Martins (empregado de escritório e novato historiador), que o vai acompanhar à residência de Antero de Quental, em São Pedro de Alcântara.

Assim, convive Antero com o jovem Eça de Queirós. Muito mais, no entanto, com Oliveira Martins. Com este último, dado também a frequentes deambulações, o poeta açoriano conhece, em Sintra, o romântico casal de mecenas das Artes constituído por D. Fernando II e a condessa de Edla, de quem são hóspedes no Palácio da Pena.

Estes amistosos passeios de fim de semana proporcionam a Antero recordar o seu tempo universitário de Coimbra, mas também a juvenil experiência proletária, primeiro em Lisboa (na Imprensa Nacional), mas também em Paris; a Oliveira Martins, evocar os tempos difíceis da adolescência. E noutra oportunidade conta o poeta como, inesperadamente, aproveitara o convite para uma visita aos Estados Unidos, a bordo do patacho Carolina.

Parte significativa do romance: os capítulos dedicados à entusiasmante iniciativa cultural denominada por Conferências Democráticas do Casino, com múltiplas peripécias e a que estiveram ligados, além de Antero, Eça de Queirós, Batalha Reis, Adolfo Coelho, Salomão Sáragga e José Fontana, por exemplo.

Entretanto, de certo modo desiludido, refugia-se o poeta em São Miguel, sua ilha natal, no âmbito familiar. Ali recebe a visita do amigo fraterno Oliveira Martins, a quem evoca os seus tempos de infância e adolescência em Ponta Delgada.

Em meados de 1877, agravando-se-lhe o estado de saúde, decide consultar, em Paris, o famoso médico Dr. Charcot. Estadia que proporciona ao autor algumas páginas de escrita interessante, narrando a consulta propriamente dita, a sessão pública, exorcizante, do referido Charcot e seus padecentes no Hospital da Salpêtrière, e ainda a súbita paixão de Antero pela baronesa de Seillière.

Anos mais tarde, instalado Antero de Quental em Vila do Conde, tendo por principal companhia as duas pupilas, Albertina e Beatriz (filhas do amigo Germano Meireles, entretanto falecido), vão visitá-lo Oliveira Martins e Eça de Queirós. E, nesta viagem de comboio, Eça, que há bem pouco tempo terminara as funções de nosso cônsul em Havana, conta precisamente os dissabores da defesa que teve de tomar em relação aos trabalhadores chineses da cana de açúcar, a bem dizer uns escravos.

Os dois escritores visitantes vão encontrar Antero numa fase de razoável saúde, porém com alguns problemas familiares, o mais grave dos quais o internamento do irmão André no Hospital de Rilhafoles.

Ora o poeta desloca-se ao Porto de quando em vez, aceitando a amistosa hospedagem do casal Oliveira Martins, naquela casa das Águas Férreas, também frequentada por Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Carolina Michaelis  e Joaquim de Vasconcelos.

Retrato de Poeta em Fundo Escuro: assim se intitula o capítulo em que se descreve a série de sessões de pose para a elaboração do pungente quadro de Columbano. Quadro que Antero oferece ao afetuoso casal Oliveira Martins, entretanto transferido para Lisboa. E o casal, sensibilizado, logo trata de inaugurar “solenemente” a obra, no âmbito familiar.

Desiludido com a situação política portuguesa, decorrente do Ultimatum Inglês de 1890, Antero de Quental decide-se por um próximo regresso aos Açores. Por enquanto, sozinho, para tratar de alojamento. Um pouco mais tarde, na companhia da irmã Ana (viúva, residente em Lisboa) seguiriam então as duas pupilas.

Jantar de homenagem ao poeta, pelo grupo literário Vencidos da Vida, no Café-Restaurante Tavares, como testemunho de grande apreço pela sua obra literária e filosófica.

O Açor, surto no Tejo, frente ao Cais do Sodré. Oliveira Martins e a esposa (D. Vitória) acorrem a despedir-se do amigo. E dali ao trágico desfecho da sua atormentada existência decorrem apenas cerca de três meses; convívio com as pupilas, os parentes e alguns amigos. O suicídio ocorre naquele triste anoitecer de setembro de 1891, num banco de jardim, frente ao Convento da Esperança, na cidade de Ponta Delgada.

O epílogo, decididamente breve – No Mais Profundo das Águas – justifica o título do romance. O revólver causador do suicídio de Antero acabara por ser oferecido ao seu amigo fraterno Oliveira Martins. Falecido este, resolve D. Vitória desembaraçar-se dessa terrível e incómoda recordação. Muito religiosa, confia o sinistro objeto a um sacerdote irlandês, seu conhecido, que frequentemente atravessava o estuário do Tejo, no vaporzito que ligava Lisboa à outra margem. Pede-lhe que o faça desaparecer logo que possa, numa dessas travessias. E o sacerdote assim procede: deixa-o cair no remoinho de espuma produzido pela hélice: “Que nunca ninguém te encontre!”

Opinião crítica:

“Estamos perante uma escrita requintada, engenhosa e eivada de uma fina ironia. […]

“Norberto Ávila escreve bem e descreve ainda melhor. Os relatos que nos faz referentes às peripécias que envolveram as Conferências do Casino são de antologia. E inesquecíveis são as páginas dedicadas ao suicídio de Antero. […]

“ Estamos perante um livro (universal e intemporal) com grande poder evocativo e boa capacidade expressiva […]

“ O açoriano Norberto Ávila não é só um dramaturgo consagrado, dentro e fora de Portugal, é também um ficcionista de grande qualidade literária. Por conseguinte, estejamos atentos a este autor que ajuda a engrandecer a língua portuguesa.”

VICTOR RUI DORES

Transcrição quase integral do Cap. IX

 

RELAÇÃO DUMA VIAGEM DO PATACHO CAROLINA

O patacho Carolina, que havia zarpado do Porto a 7 de julho de 1869, navegava direto a Halifax, uma cidade canadiana da Nova Escócia. Azaradamente, desde o início da viagem, os ventos foram-se-lhe apresentando de vários quadrantes, quase sempre contrários.

 

Joaquim Negrão mantinha no convés, permanentemente disponíveis, para Antero e para ele próprio, duas cadeiras de extensão. E certo dia, ao fim da manhã, estava o infatigável capitão alongado na sua cadeira, de tronco despido, apanhando sol. Lançava de vez em quando um olhar às velas enfunadas, outro a qualquer grupo de marinheiros em trabalho de navegação. Ao fundo, o mar larguíssimo, rebrilhante. Não tardou que surgisse o poeta, proveniente do baixo interior do navio. Aligeirado no vestuário, trazia nas mãos uma meia dúzia de livros.

 

“Isso é que foi madrugar, seu maganão!” gracejou Joaquim. “Bem pouco faltará para o meio-dia.”

“Notou-se muito a minha ausência matinal? Perguntaram por mim as baleias? Os golfinhos talvez…?”

“E quejandos cetáceos: cachalotes, dugongos, narvais e outros que tais. Todos curiosos de saber algo sobre a saúde e a disposição do Sr. Poeta.”

“Para outra vez diga-lhes que o Sr. Poeta é um dorminhoco inveterado. (Quem me dera tal privilégio!)”

“Mais uma noite de insónia?”

“A bem dizer, isso mesmo. Do estômago também não ando muito católico.”

“E vem assim carregado de livros!”

“Situação ambígua: burro ou doutor? E pousou os volumes, quase todos excelentemente encadernados em carneira azul, junto à cadeira que lhe era reservada. “Encontrei estes livros na sua câmara. Desculpe lá o abuso.”

“Gramáticas, seletas e dicionários! Será que pretende iniciar-se no estudo dessa língua… bárbara?”

Sentou-se o delicado viajante e estendeu as pernas nas ripas da cadeira de extensão. Tomou depois um dos livros: “Na viagem de regresso (assim prometo) já irei lendo alguns dos meus queridos poetas alemães.”

“Es freut mich sehr… Herr Quental!”

*

De mil e um assuntos tratavam as conversas destes dois excelentes companheiros de viagem, que assim iludiam o tempo. E por ser muita a curiosidade de Antero, sempre tão pronto a comunicar as suas ideias como a escutar as de outrem, falava-lhe Negrão de recentes proezas da história marítima. E também de algumas catástrofes e perdas mais lastimáveis. De como, por exemplo, um opulento armador, de Boston, mandara construir uma nave sumptuosa, batizada James Baines, de 2275 toneladas, 80 metros de comprimento e quase 14 de largura. E concretizava em cuidadosos pormenores: “Os três mastros eram  invulgarmente robustos. Isto, para suportarem a desmesurada superfície do velame, que ultrapassava largamente os 10 mil metros quadrados.”

Maravilhou-se o poeta com semelhantes informações. E Negrão acrescentou: Imagine Você que esse esplendoroso navio (cujo proprietário, o tal James Baines, figurava esculpido na proa) conseguiu ir de Inglaterra a Melbourne em apenas 63 dias! Levava 700 passageiros (oitenta dos quais de primeira classe); 1400 toneladas de carga e 350 sacas de correspondência. O mais engraçado é que a correspondência deveria ser entregue, sob pena de multa, no prazo de 65 dias!”

“Chegaram dois dias antes,” facilmente concluiu Antero.

E narrava-lhe depois o capitão o fim trágico da nave magnífica, em abril de 1858. Estava ela descarregando no porto de Liverpool quando alguém se apercebeu de que, de uma das escotilhas saíam grossos rolos de fumo. Em menos de um credo arrastou-se um fogo violento, de ponta a ponta. Os jornais disseram então que, às 9 da noite, a orgulhosa Jaimes Baines era apenas uma “gigantesca brasa flutuante”.

E mais profundamente se impressionava o poeta ouvindo contar do bergantim Gatherer, que transportava trigo na costa do Pacífico e cujo capitão, um tal John Sparks, se mostrava de uma crueldade inaudita para com a tripulação. Certo dia, ao largo do Cabo Horn, um marinheiro sueco (ou norueguês?) subiu ao mais alto do mastro grande. E, depois de amaldiçoar Sparks com palavras terríveis, atirou-se para o convés. Outro marinheiro degolou-se e um terceiro foi batido por um tiro, desfechado pelo primeiro oficial.

Seguiu-se um breve silêncio, bem significativo. Antero refletiu um instante na situação lamentável de tantos semelhantes, sujeitos aos caprichos e à tirania dos seus donos. Mas não foi sobre isso que falou: “A propósito de tudo o que me descreveu, no que respeita a navios e navegações contemporâneas, ainda não tive oportunidade de perguntar-lhe em que circunstâncias lhe chegou às mãos este belo patacho Carolina.”

“Pois contar-lhe-ei, com muito gosto.” E foi enchendo o cachimbo de aromático tabaco da Virgínia. “Há menos de dois anos (isto passou-se nos fins de 67), vivia eu, solteiro, em Portimão. Em casa de meu pai, que, não sei se já lhe disse, sendo modesto proprietário, é rendeiro dum grande capitalista: José Maria Eugénio de Almeida. Há-de ter ouvido falar.”

“Mas certamente. O da Real Contrato do Tabaco, Sabão e Pólvora”

“Ajudando meu pai nas suas múltiplas tarefas, posso dizer que levava uma existência relativamente cómoda e regalada, que me permitia dedicar-me à caça e à pesca (duas paixões quase congénitas). Independentemente de umas incursões no domínio amoroso… E aconteceu chegar ao nosso porto este patacho, com fogo a bordo. Proveniente da Sicília.”

“Uma ilha muito incandescente, como sabemos. Não fosse ela a pátria do Etna e da Máfia.”

“A carga era de enxofre. Imagine!”

“As sulfaras é isso que produzem.”

“Extinto o incêndio, acendeu-se uma virulenta disputa entre os proprietários do barco e a companhia de seguros, mais os consignatários da carga. Resultado: a carga, houve que transferi-la para outro navio. E o patacho ia ser posto à venda. O que realmente veio a acontecer poucas semanas depois, ou seja: no início do ano passado. Isto acontecia no Largo do Cais. Ali tinham depositado todos os pertences de bordo: a roda do leme, o barómetro, mobílias, lanternas, aparelhos de navegações, utensílios de cozinha… que sei eu? A verdade é que, decorrida pouco mais de meia hora sobre a abertura da hasta pública, licitantes, não os havia. Ora eu andava por ali, apreciando a cena, mais por desfastio que por verdadeiro interesse. E dizia a uns amigos meus, entretanto chegados: ‘Será que ninguém ousa abrir os lanços?’ ‘É que nos arriscamos a ficar aqui toda a manhã’, receou um deles, dirigindo-se ao juiz que presidia à praça. E o juiz comentou: ‘Por mim, estarei disponível o tempo que for necessário.’ Nesse momento vejo passar na outra banda do largo (devidamente acompanhada da mamã), uma jovem senhora com quem muito me importava reatar umas conversações afetuosas. Apresentei ao juiz as minhas despedidas, ia mesmo a afastar-me quando um dos tais meus amigos me espicaçou: que lançasse eu. E este insensato que aqui vê, sem pensar bem no que fazia, afastando-se realmente, cobriu com 100 réis a licitação.”

“E depois?”

“Não se havia passado outra meia hora (estava eu muito bem sentado, ao sol do inverno, na companhia das duas cavalheiras), quando veio procurar-me um oficial de diligências: ‘O Sr. Dr. Juiz pede a comparência de V. Exª’ ‘De que me acusam, meu amigo?’ ‘É para assinar o termo da arrematação.” Caí das nuvens, como Você pode imaginar!”

“Imagino, imagino!”

“O navio e todos os seus pertences, até às mais ínfimas bugiarias, tinham-me sido adjudicados! Ora a verdade é que eu não dispunha de dinheiro bastante (nem coisa que se parecesse) para satisfazer semelhante compromisso. Comecei logo a afligir-me. Tanto mais que meu pai não fora ouvido nem achado e estava nesta operação como Pilatos no Credo.”

“E Você (se bem me recordo dos meus malfadados estudos de Direito), teria 24 horas para pagar…”

“Ou, segundo parece, arriscar-me-ia à prisão.”

“Uma situação dramática, convenhamos, quase shakespeariana. N’O Mercador de Veneza, se não me engano, há vestígios dessa tramóia.”

“Apressei-me a ir falar ao juiz, pedindo-lhe por quantos santos havia que considerasse sem efeito o lanço desastroso. Impossível. Pois não concordava eu ter sido um facto público e manifesto? Dirigi-me então para casa (e sabe Deus com que ânimo!), disposto a enfrentar a autoridade paterna, assim tão gravemente ultrapassada. Aligeirei o mais que pude a rudeza do golpe: ‘Ouça, meu pai. Pensando bem, o navio até nem foi caro. Porque é de boa construção e, devidamente reparado, vender-se-á sem prejuízo, quem sabe até se com algum lucro?’”

“E ele?”

“Hesitou, hesitou… e concordou. (Não sei a que santinho do Céu devo semelhante graça.) Pagou o patacho, logo no dia seguinte. E tratou imediatamente de o consertar. Ficou um mimo, diga-se a verdade. Só o comprador é que não se dignava aparecer. Mas enfim, para não se perder tudo, lá fomos fazendo umas viagens a Lisboa e ao Porto, carregando figo seco. O capitão era Silva Ribeiro. E eu seguia a bordo, matriculado como sobrecarga. Competia-me, portanto, dirigir o comércio da carga, como representante de meu pai, que mau grado seu, continuava proprietário do navio. Fui-me afeiçoando àquela vida marinheira e, por fim, confesso que já nem fazia qualquer diligência de encontrar comprador para o nosso querido patacho Carolina.”

Refira-se entretanto que este jovial e generoso Joaquim Negrão, 14 ou 15 anos antes, ainda estudante do liceu, tivera oportunidade de viajar num navio pertencente ao pai, visitando a Madeira e as Antilhas. Com razoáveis conhecimentos de Aritmética, Geometria e Geografia, logo aprendeu o suficiente para, no regresso a Portugal, tomar à sua conta todas as observações de bordo. Além disso, os estudos que fez no tão afamado Colégio dos Inglesinhos de Lisboa, de onde saíram tantas sumidades, deram-lhe sólidos conhecimentos das línguas francesa e inglesa, ministrados por excelentes professores dos respetivos países. (De tais pormenores informativos, tão lisonjeiros para a personagem em questão, achei conveniente encarregar-me eu mesmo, autor do romance. Evitando o feio elogio em boca própria.)

Negrão contou ainda ao poeta como, tomando lições particulares de náutica, se apresentara a exame perante a Intendência de Marinha, vindo assim a substituir o piloto. Manteve a tripulação e atreveu-se a viajar para Málaga, Roterdão, Hamburgo e Newcastle-on-Tyne, até que lhe surgiu aquela oportunidade de conhecer – em tão ilustre companhia – a costa oriental do Canadá e a tumultuosa cidade de Nova Iorque.

Alternavam estas conversações com largos períodos de leitura. O capitão, particularmente propenso à literatura de viagens, variando entre o clássico Fernão Mendes Pinto e o assombroso, surpreendente Júlio Verne.

Antero, habitualmente tão diverso nas suas preferências de leitor pertinaz, voltava-se agora bastante mais para o aprendizado da língua alemã, em que experimentava inegáveis progressos. Isto, não obstante o frequente mal-estar que lhe causava o enjoo e o reduzido alimento que lhe consentia  a fragilidade do estômago.

Levando já 28 dias no imprevisto caminho do mar, estavam ambos debruçados na amurada do navio, olhando o entrechoque das ondas, de que resultava aquele infatigável rendilhado de espuma, agora ligeiramente dourada pelo sol poente. E, erguendo a cabeça maravilhosamente desgrenhada, o poeta teve logo um pressentimento, de que deu notícia. Tremeram-lhe então as narinas, inspirando a revigorante brisa marítima. E disse: “Não sei se me engano, Joaquim, mas parece-me que anda no ar um levíssimo aroma de resina.”

“Excelente pituitária, meu caro amigo. Na verdade, temos terra próxima. E a península da Nova Escócia é toda ela uma floresta de pinheiros e abetos.”

Só quatro horas depois, sendo noite de estrelas rutilantes em azul remoto, descortinaram as primeiras luzes, no porto de Halifax.

Fez-se o desembarque no dia seguinte. E verificou-se haver na terra grande mexida, por estar de visita à progressiva cidade qualquer distinta personalidade política. Celebravam os habitantes o feliz acontecimento com festejos de arromba, marchas militares e salvas de tiros a bordo dos navios de guerra surtos no porto. Antero, que não apreciava festas e detestava o barulho, disse ao capitão: “Mas que pouca sorte! Onde nós viemos cair!”

“Já me informei devidamente a este respeito. É questão de dois dias. Refugiemo-nos a bordo, que já lá temos comida fresca. E sempre ouviremos mais atenuado o ruído desta babilónia que não esperávamos.”

Assim fizeram. Regressando ambos a bordo, viram ainda como um impetuoso rio de desvairada gente desembocava na grande praça.

Voltou o poeta à sua cadeira de extensão, a entregar-se ao estudo da língua alemã. Ao meio-dia, como não sentisse ânimo ou energia bastante para ir sentar-se à mesa das refeições, a que naturalmente presidia o capitão, deixou-se ficar ali, no convés, onde se fazia sentir a humidade do clima, agravado por um calor quase repentino, mesmo assim ainda aceitável. Terminado o almoço, o próprio Joaquim Negrão, anfitrião exemplar, veio até ele com um boa tigela de canja de galinha: “ Então como é que vai esse estômago?”

Antero, a braços com as declinações do adjectivo (…roten Lichtern, roter Lichter), pôs o livro de parte: “Com vontade de resistir.” Depois, aceitando a oferta: “Você e a tripulação estragam-me com mimos.” Bebeu uns goles de caldo.

“Sabemos bem quem levamos a bordo…”

“Cumprimente o cozinheiro, da minha parte.”

“Assim farei.”

“Deve estar ótima esta canja. Pudesse eu apreciá-la devidamente. – Quanto tempo ficaremos ainda em Halifax?”

“Poucos dias. Tão depressa nos desembaracemos do sal e das cebolas, meteremos um bom carregamento de gesso, destinado a Nova Iorque.”

“Têm por lá muitas pernas partidas?”

Negrão riu-se e informou: “Até Nova Iorque há-de ser uma semana de viagem.”

Entretanto, havendo o figurão oficial deixado Halifax, voltou a capital à sua tranquilidade. E só então os dois amigos puderam apreciá-la devidamente, toda na sua cor de tijolo rosado, resguardada por um céu suavemente matizado de pérola. Passeavam lado a lado pelas amplas avenidas e, por contraste com os dias precedentes, achavam a cidade silenciosa e puritana.

Mas a grande surpresa seria Nova Iorque. Antero de Quental, sentindo-se ligeiramente melhor, mais facilmente aceitava o desafio do capitão, para longos passeios no Central Park. Por feliz casualidade estava ali instalada uma bem apetrechada exposição industrial, e o poeta, curioso de tantas inovações tecnológicas, passava horas observando as máquinas e os modelos expostos, lendo a documentação disponível, ouvindo os esclarecimentos dos representantes. E havia de tudo. As coisas mais mirabolantes, mais inimagináveis. Desde uma máquina de costura doméstica, fabricada por um tal Isaac Singer, de Boston, a uma broca dentária, de corda, concebida em Inglaterra; desde uma metralhadora de 10 canos a um isqueiro para cigarros e charutos; desde o leite condensado à espingarda de carregar pela culatra. E muito mais, como os primeiros artigos de plástico (moldados em parkesine, auspiciosa união do nitrato de celulose com a cânfora), o arame farpado (mas que invenção demoníaca!), o betão armado, o torpedo (oh, grande perigo para quem anda no mar!), tal como dois bem intencionados contributos do sueco Alfred Nobel: o detonador e a dinamite.

Porém o que mais encantou Antero e Joaquim foi uma moderníssima máquina de café, que produzia uma bebida celestial, conforme os dois puderam verificar várias vezes. Desejava o capitão adquirir uma delas, mas, achando-as caras, foi adiando a compra. O que não impedia os dois companheiros de, passando por ali noutras ocasiões, ouvirem uma vez mais a preleção enaltecedora do aparelho, monótona e incansavelmente debitada por um janota suiçudo e amaneirado. Assim, muito a contragosto, depois de tomarem o seu café gratuito, limitavam-se a louvar a excelência da bebida, para logo se afastarem, com um amável sorriso de agradecimento.

Ao terceiro dia, aproximando-se os dois do local bem-amado, desconfiou Antero de que o peralvilho olhava para ele com certa insistência: “Já deve conhecer-me, é o que é.”

“Antero, não acha isso um absurdo? Dado que passam por aqui milhares e milhares de pessoas, como poderia o homem fixar cada uma delas? Ainda ontem ele nos ensinou o funcionamento da máquina, com a mesma espontaneidade e a mesma gentileza da véspera. Coisa que não aconteceria, certamente, se se  lembrasse de nós.”

“Ná, meu caro Joaquim Negrão. É muita vez de ir à ‘fonte’. Hoje, por mim, dispenso o café. E direi mesmo que, a respeito da exposição industrial, já me dou por suficientemente informado. Há que desconfiar, no entanto, de alguns destes vangloriosos passos da Civilização.”

E não tornou mais ao Central Park, nem mesmo para contemplar as rosas, escutar os passarinhos ou ver passear, de mãos dadas, os fogosos apaixonados de Nova Iorque.

Mas naquele mesmo dia em que se deu o embirrento episódio da máquina de café, ao regressarem a bordo os dois amigos, disse Joaquim a Antero, pousando-lhe a mão no ombro: “Desculpe Você a melindrosa pergunta: Será que precisa de algum dinheiro? A minha bolsa fica à sua inteira disposição…”

“E muito lhe agradeço, acredite. É certo que esta viagem à América, cuja oportunidade lhe fico a dever… surgiu assim…inesperadamente…”

“Por isso mesmo…”

“Mas não, muito obrigado. Poderia eu morrer, entretanto…”

“Iria para o Inferno…?”

“Isso não sei. Não conheço a divina legislação em vigor. Nem os meus estudos foram de Direito Celestial.” Fez uma pausa, apertando-lhe a outra mão entre as suas: “Aceito de bom grado a sua hospedagem, a bordo. Apenas isso.”

“Homem, conforme se diz, os amigos são para as ocasiões.”

Mais tarde, depois de mudarem de roupa, passeavam ambos no convés. E perguntou Negrão ao querido companheiro: “Voltou a falar com aquele funcionário do nosso Consulado?”

“Sim, ontem à tarde.”

“E então? (Se me é permitido perguntar…?”

“Confirmou tudo quanto já havia dito. O tal banqueiro, muito rico e com apreciáveis abastanças no Brasil, estava mesmo disposto a contratar-me como professor de língua portuguesa. Para os filhos…”

“Uma boa proposta, suponho…”

“Pareceu-me de aceitar, primeiramente. Mas ontem… receando falta de forças, acabei por recusar.”

Entretanto o poeta, não querendo partir de Nova Iorque sem auscultar melhor a vida quotidiana, a realidade político-social da grande metrópole, saiu ainda três ou quatro vezes. Sozinho, sempre com a sua bengalinha encastoada, deambulou pelas amplas avenidas e pelas ruas estreitas dos bairros populares. E Joaquim Negrão, pela responsabilidade máxima que lhe cabia naqueles comércios e navegações, ocupava-se de encontrar a carga que justificasse um próximo regresso a Portugal. Pressentia algumas hipóteses em Brooklyn, burgo vizinho. O que realmente aconteceu. Tratava-se de uma carga completa: trigo ensacado, com destino ao Porto, precisamente. “Ouro sobre azul”, disse ele de si para consigo.

Em fins de setembro descia o patacho Carolina as águas pardas do estuário do Hudson, rumo ao Atlântico. Nas primeiras horas de viagem permitiu-se o capitão um pouco menos de assistência ao seu hóspede, preocupado como estava com algumas particularidades da viagem. E, enquanto Antero ia sentar-se no convés, na sua cadeira de extensão, ele procurava o piloto, para troca de informações puramente técnicas. Mostrava-lhe a carta de navegação, com seus pormenorizados contornos de costas, ilhas, recifes, baixos, faróis e sinais sonoros; até mesmo as profundidades e a declinação magnética da agulha. (Enfim, minúcias que pouco poderão interessar ao leitor.) E foi-lhe dizendo: “Faço-lhe notar que, a menos de um grau, corre um banco de areia, submerso.”

“Muito agradeço o seu cuidado, Sr. Capitão. Apto para entrar no porto, apto para sair dele, não é verdade?”

“Teoricamente, sim.” Olhou pela vidraça da casa de pilotagem, observando, no horizonte, umas pequenas nuvens acobreadas, devido ao sol quase poente. “Este banco de areia (conforme também já notou a sua clarividente perspicácia) é cortado ao meio, aproximadamente, no espaço de uma milha. A minha opinião é que deveríamos ir navegando para norte, ao longo da costa e à distância de umas 5 para 6 milhas. Contornado o banco nesse ponto, tomaríamos então o mar alto.”

“Sim, Sr. Capitão. Às ordens de Vossa Senhoria.” E, vendo sair o patrão-mor do navio, apressou-se a desrolhar uma garrafa de rum da Jamaica, à última hora mercada em Nova Iorque.

*

Com o declínio da tarde acentuaram-se os prenúncios de tempestade: as nuvens fortemente carregadas, um vento de refregas, do lado de terra, e o mar progressivamente ouriçado. Mesmo assim, Antero aguentou-se um bom bocado no convés, estirado na sua cadeira de viagem, cabeça reclinada para trás, olhos quase sempre cerrados, numa lassidão irresistível. Fechada, sobre o colo, a terrível e simultaneamente apaixonante gramática alemã. Acudia-lhe ao espírito semiembrutecido pelo enjoo a perspetiva perdida do emprego em Nova Iorque. Tinha ficado com nomes e endereços. Quem sabe se ainda estaria a tempo de renegociar as conversações? As condições que lhe propunham eram mais que razoáveis, eram mesmo excelentes. Mas ficar assim, sabe-se lá por quantos anos, tão longe da família… Que uma coisa era ir aos Açores, arquipélago com a possibilidade de duas ligações mensais, outra desterrar-se nos Estados Unidos da América, com tão raras hipóteses de visita a Lisboa e à terra natal. No entanto, seria bem de admitir que o Joaquim Negrão (amigo cordial e corretíssimo) passasse a incluir Nova Iorque nas suas rotas de armador e mercador, e que se não importasse de, uma vez por ano, digamos, transportá-lo por um preço aceitável. (Porque não seria admissível voltar a fazer-se convidado para semelhantes navegações.) Mas também… sujeitar-se um homem doente como ele aos imprevistos do mar! Era de fraco estômago, disso não tinha a mínima culpa. E aqueles balanços… aqueles vómitos… (João de Deus lá teria as suas razões, puramente intuitivas.) Nem sequer perguntara as idades dos filhos do banqueiro. Seriam ainda pequenos? Sendo eles crescidotes, vontadeiros e malcriados, então já lhe poderia minguar a paciência para ensinar fosse o que fosse. O banqueiro teria certamente boas relações de amizade com os meios literários e artísticos nova-iorquinos. A frequência de tão qualificadas pessoas só poderia ser para ele, poeta tantas vezes isolado, um poderoso estímulo de criatividade. Talvez o lugar se mantivesse em aberto. O funcionário do Consulado mostrara-se muito prestável. Um despacho telegráfico resolveria o problema. Mas o patacho Carolina não dispunha ainda de tais benefícios do Progresso. E, chegando o barco a Portugal, sabe-se lá dali a quanto tempo, a oportunidade do emprego ter-se-ia dissipado. (Mas aquele mar, meu Deus!) Que maravilhosas ou incómodas poderiam ser as viagens marítimas!

Levantou-se, com tonturas e náuseas, para além de uma crescente admiração pelos primitivos navegadores de Portugal e Espanha, que, em barquitolas liliputianas, haviam cruzado aqueles mares, desde há mais de 4 séculos. Cambaleou no convés, deixando cair a gramática alemã, que logo apanhou; desceu ao interior do navio. E, naquele torvelinho de vento desencontrado, deparou-se-lhe na escada, imaginariamente, um rapazote arruivado e sardento, de fato à maruja, todo cheio de nódoas de tinta de escrever, que, levando as mãos às orelhas e lançando a língua de fora, lhe fazia uma carantonha mais assustadora e indecente que uma gárgula-diabo da Catedral de Notre-Dame de Paris. Devia ser o filho… mais velho… do banqueiro americano.

O diligente capitão voltou à casa de pilotagem e consultou o competente barómetro aneróide, de fabrico francês: “A pressão continua a baixar.”

“E de que maneira!” respondeu o piloto, manobrando com firmeza a roda do leme.

“Se o vento se fixar a sueste…”

“É o mais provável.”

“…não vai ser fácil safarmo-nos do litoral.”

“Ora, ora. Não vê que vamos bem acompanhados? Quase duas dezenas de barcos aí vão, seguindo no mesmo sentido.”

“Talvez conheçam bem a costa e saibam onde colher abrigo, se necessário. Não é esse o nosso caso, mestre Leónidas.”

Na verdade, seguiam o mesmo rumo cinco ou seis navios de ferro, uns propulsionados por hélices, outros com suas rodas de pás, além de bem diversos veleiros: escunas, lugres, patachos, brigues, bergantins…

Foram-se assim desviando de terra. E o capitão, já no convés, assistindo à sondagem a que iam procedendo dois marinheiros, exclamou: “Pronto! Por aqui já não há rebentação.” E, ciente de que o barco velejava no pretendido intervalo, entre os dois troços do banco, correu a dar novas ordens ao piloto.

Repetidas manobras de leme e velas meteram o navio para fora, rumo ao mar alto. E, outra vez no convés, mandou o capitão largassem todo o pano. Aproveitando o vento da terra, que continuava frescalhão, dali se afastariam o mais possível. Tais diligências foram feitas, nesse sentido, que aí pela uma ou duas da madrugada já se achavam a mais de sessenta milhas do perigoso banco.

O barómetro descera assustadoramente. O vento zunia nas enxárcias. E não tardou que o mar saltasse ao convés, em fortíssimos chuveiros de borrasca, o que não era senão o início de um tremendo ciclone a que o patacho e os seus ocupantes resistiriam durante cerca de setenta horas. Entretanto, perdida a gávea, levada a vela grande, descosido o estai, esforçado trabalho tiveram em substituí-los. Uma vaga monstruosa abateu-se sobre a câmara do capitão, inundando-a por uma fenda aberta. E alguns marujos, encharcados até à medula, manipulavam as bombas, num desespero refreado.

A dado passo, receando que o navio estivesse em risco de perder-se, procurou Joaquim Negrão o amigo Antero, para as francas palavras que lhe eram devidas em tão angustiosas circunstâncias. Foi encontrá-lo inesperadamente apaziguado, estendido no beliche, entregue ao apaixonado estudo do Alemão. E isto, muito embora fosse nítido o persistente assalto das vagas ao vidro espesso da vigia, assustadoramente agravado pelo entrechoque de objectos vários. Cambaleante, o dedicado mareante aproximou-se e disse em voz reforçada, para se fazer ouvir: “O navio está a cair!”

“O quê?” perguntou o poeta, interrompendo a leitura.

“Está a descair, a desviar-se. E o pior é que há por aqui uns bancos…”

“Serão os da Terra Nova?”

“Que divertido!, não é? Mas a verdade é que não estamos livres de naufragar…”

“Se lhe parecer iminente o naufrágio… mande-me avisar. (Não é que isso me salve…)”

Sem saber o que pensar de semelhante fleuma, de tal desprendimento, voltou o capitão a subir ao convés. Ali se cruzou com um velho marinheiro, da Póvoa de Varzim, experimentado naqueles mares, que logo o advertiu: “Olhando bem o jeito como este mar se parte… diria eu que o fundo há-de andar por aí a duas braças.”

E o capitão, vendo por ali perto um tripulante mais assustadiço, com generosas e fervorosas promessas ao Senhor dos Navegantes, admoestou-o, firmando-lhe a mão no ombro: “Ó Manuel Sargaço, não quero aqui alarmes, ouviu? Se precisar de si, enviarei recado.”

“Entendido, Sr. Capitão.”

E logo, sem dizer aonde ia, o dono e senhor do Carolina encaminhou-se para a casa de navegação, a substituir o piloto (que para isso mesmo o mandara chamar).

Lá para as duas ou três da madrugada começou a abater o vento. E Joaquim Negrão, vendo passado o grande perigo, desceu ao camarote em que viajava Antero, para lhe dar a boa nova: “Pois, meu caro amigo, desta escapámos nós.”

“Ainda bem.” Fechou o livro. “Menos satisfeitos estarão os tubarões.”

“E as forças?”

“Muito diminuídas. Não consigo aguentar os alimentos.”

“Sei de uma coisa que lhe faria bem.”

“Desembarcar. Em terra muito firme, se possível.”

“Confie na minha terapêutica. Prepare-se para, todas as manhãs, tomar um revigorante banho de água salgada.”

Com efeito, Antero de Quental consignou-se às recomendadas virtudes da talassoterapia. Antes do almoço, dois marinheiros traziam para o convés uma enorme selha (oportuno aproveitamento de uma meia pipa), que iam enchendo de água do mar, solenemente trasfegada do grande reservatório atlântico, em baldes de castanho. Depois, havendo-se o poeta despido integralmente, com a carinhosa ajuda de Negrão, levavam-no os mesmos dois marujos, em braços, até à improvisada banheira. E qualquer tripulante que eventualmente atravessasse aquela esplendorosamente vasta sala de banho – teto azul celeste e panos de vela de Vila do Conde por cortinas – se abismava com a magreza do ilustre viajante. […]

NORBERTO ÁVILA

www.norberto-avila.eu

Outras passagens deste romance, acessíveis, online, no Caderno Açoriano 16, da Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia (dedicado a Norberto Ávila):– Trechos dos Capítulos I, XVI e XVII.